O abacate no pote de arroz

Com um nome tão peculiar, esse é um texto sobre sobre saber esperar. Volta e meia nos deparamos com situações da vida que nos fazem duvidar da nossa capacidade de esperar, temos a sensação de que vamos perder o juízo antes do dia chegar, da hora marcada, do encontro sonhado, do fim da história…

Na semana passada ganhei um abacate, um abacate daqueles viçosos de mercado, que tem um brilho próprio. Dentre outras frutas é uma das minhas preferidas e tenho uma combinação perfeita para ele: leite em pó e açúcar… aah me torno criança com esse sabor. Mas, não é disso que venho falar. Este lindo abacate que me foi presenteado, estava verde, como quase todas as frutas que encontramos no mercado. E, aliás, se quer uma dica para escolher, quanto mais brilhante a casca do abacate mais verde estará.

Bom, estava até durinho de tão verde, então pensei com meus botões: vou esperar alguns dias até poder degustá-lo. E, esperei pacientemente por três longos dias, enquanto o namorava toda vez que abria a geladeira. Na segunda-feira, após chegar cansada do trabalho, me joguei no sofá e logo em seguida me lembrei do abacate, pensei comigo: “deve estar no ponto!”. Corri até a geladeira, o peguei em minhas mãos e como um gesto de pura pirraça lá estava ele, durinho como há três dias atrás… ah, que decepção. Havia aluído em apenas uma pequena pontinha.

Então, me lembrei de um gesto que meu pai me ensinou, um pequeno truque de matuto conhecedor das artimanhas da natureza. Algumas frutas estragam com muita facilidade no pé e, por isso, devem ser colhidas antes de terminarem o processo de amadurecimento. E, então, para manter esse processo de amadurecimento natural e, até acelera-lo um pouco, meu pai me ensinou a guardar as frutas dentro do pote de arroz. Lá vai funcionar como uma estufa que vai ajudar no amadurecimento e ao mesmo tempo impedir que a umidade apodreça as frutas.

Nossa, aquela ideia surgiu como uma luz! “Vou guardar meu abacate no pote de arroz!” E assim o fiz. Continuei minha rotina de casa, banho, jantar, tv, quando de repente, voltei a pensar no abacate. Queria tanto comê-lo que voltei no pote de arroz para mais uma examinada. Depois de apalpa-lo com atenção me dei conta de que estava sim um pouco “de vez”, me alegrei busquei uma faca e quando comecei a cortar sua casca, algo se acendeu dentro de mim.

Ele não estava maduro ainda, não estava no ponto e com certeza seu sabor estaria horrível. Iria parti-lo e não poderia comê-lo porque ainda não era hora, também não poderia colocá-lo de novo no arroz pois estragaria o próprio arroz… e então, estaria tudo perdido… não comeria nem naquele momento nem depois. Mas, se pudesse guardá-lo novamente e esperar por mais dois dias, aah sim, então seu sabor seria inigualável e “demora” valeria a pena.

Larguei a faca e cuidadosamente, como que pede desculpas a uma criança, guardei novamente o abacate no arroz. E aquilo, bom aquilo me fez pensar, me fez fazer uma reflexão tão profunda que quis compartilha-la com o mundo.

Um simples abacate me fez entender e, muito importante, aceitar que tudo tem um tempo certo. Ouvimos isso desde crianças, tudo tem sua hora, tudo tem o momento certo de acontecer e se não sabemos esperar, se não podemos lidar com tempo de amadurecimento de cada coisa, acabamos por perder o sabor de viver. Acabamos tendo que provar o gosto amargo de uma fruta verde.

E se pensarmos bem nisso vamos saber que na vida tudo tem um tempo. Saber esperar esse tempo com aceitação é o que nos traz paz, pois deixamos de ansiar pelo prazer rápido e momentâneo e aprendemos a apreciar o período de espera como um belo passeio no campo, com a certeza de que no momento certo tudo ficará bem.

Coloque seu abacate no pote de arroz e espere em paz.

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